domingo, agosto 23, 2009

Vicissitudes

O calor percorria meu corpo despretensiosamente naquela manhã de quinta feira. Eu estava atônita e perplexa com a mudança brusca do tempo. No dia anterior, o vento frio dava-me satisfação de um inverno reminiscente, empolgante, promissor. Se há alguma mazela que destrói meu humor e disposição para ir ao trabalho cotidianamente, isso se chama “dia quente”.
Ofegante, apontei um dos braços para que o transporte coletivo parasse mesmo depois do ponto. Estava atrasada. Era tênue a expressão em meu rosto; suada e tensa, eu me lamentava franzindo a testa por um pessimismo latejante de mais um dia estressante.
- Bom dia – eu disse num tom de extrema obrigatoriedade e eventualidade. O motorista não respondeu e me virei complexada...havia um fone em seus ouvidos.
Prossegui em direção ao cobrador e uma senhora sentada à cadeira próxima lhe perguntava em que ponto descer para encontrar uma lojinha perto do viaduto da Av Régis Pacheco. Eu atravessei a fala do cobrador e instruí a senhora que, por conseguinte, me retribuiu com um sorriso amistoso. Sentei-me, pois, adiante, ao lado esquerdo onde as janelas estavam escancaradas e a brisa adentrava-se presunçosa. Não havia ninguém ao meu lado. É curioso notar a disposição dos seres humanos que usam ônibus; sempre procuram um lugar em que ambos os assentos estejam vazios. Gostam da solidão e o olhar divagando sobre as janelas empoeiradas, “pensam na vida” com o silêncio fugidio interrompido pelo grosso barulho do motor do veiculo. Alguns sentem sono, outros saudade, já outros só observam enquanto muitos outros sonham. A fuga dos pensamentos é sempre boa, mas quando não possuem sentido ou lógica são ótimas.
Propositalmente olhei fixo para uma moça sentada do outro lado, mas na mesma direção, que deveria ter mais ou menos a mesma idade que eu. Tentei não olhar tanto, mas chamaram-me a atenção algumas falhas em seu couro cabeludo disfarçadas por um loiro, liso e ralo cabelo. Percebi que dois rapazes sentados atrás da moça cochichavam pelo mesmo motivo que chamara minha atenção. Tentei acordar do hipnotismo que me prendera à face fria, pálida e doente da jovem. Não consegui. Levantei-me num impulso curioso.
- Com licença, posso me sentar? – indaguei à moça.
-Ah sim, claro. – ela disse quase num sussurro.
Após uma breve apresentação formal e um silencio posterior instigante, eu disparei:
- Humm, não quero parecer inconveniente, mas eu estava observando você do outro lado – por um instante tive medo de ser intrometida, mas algo me impulsionava e quando eu menos esperava... – o que houve? Digo, você esta bem? – respirei num misto de alivio e culpa. Ela riu de canto.
- Eu tenho câncer. – eu não consegui uma feição assustada ou qualquer uma que demonstrasse o que realmente sentira. Saí de casa impregnada por um paradigma do meu mundo egoísta e meu pavor constante pelo calor e agora estava à frente de uma realidade bem mais ávida. – E você é a primeira pessoa “desconhecida” que me pergunta em vez de ficar só olhando meus poucos fios de cabelo na cabeça. – ela completou rindo de novo, eu assenti.
- Você se sente feliz? Tipo...apesar de tudo? – gaguejei.
- E você também acaba de ser a primeira pessoa que me pergunta isso me vez de “como vão as sessões de quimioterapia?” – ela parecia satisfeita com o subjetivismo de minhas perguntas, que para ela, eram incomuns. – Sou sim - disse complacente – o medo de não ter tempo para realizar tudo que quero, faz com que eu viva intensamente todos os dias. Ninguém vive aguardando uma morte acidental, ainda mais na minha e na sua idade – explicou pausadamente - mas eu aguardo a morte que, de fato, é prevista. E pode acreditar, isso me faz “ter pressa” em ser feliz.
Emudeci. Meus olhos ensopados com lágrimas teimosas diziam para a moça: “você tem toda razão”. E antes que eu pronunciasse algo, meu ponto chegou e eu tive que me levantar rapidamente.
- Até outro dia – disse.
- Até – o sorriso escondido nos lábios ressecados da jovem despontou lívido.
O forte odor de gordura que era expelido pela pastelaria em frente ao ponto de ônibus das minhas paradas cotidianas nem pareceu me incomodar, como de praxe. A realidade fria aquecera meu coração fútil. Vicissitudes; o nome que dou à fantástica mania que a vida tem de nos ensinar a viver.


Crônica que dedico a todos que anseiam a felicidade leve, boa e apaziguadora.

10 comentários:

Unknown disse...

Então...

Que vivemos intensamente a arte de ser feliz, sem precisar q algo q nao esteja em nosso controle nos impulsione a isso!!

;)

Otimo texto Me!!
;)

Dudu disse...

Qd vc me contou a historia assim de um jeito bem despretensioso eu nunca ia imaginar q ia se transformar na poesia que vc acabou de fazer. Caraca, se eu fizer um piquenique no meu quintal e te chamar pra fazer uma crônica, vira um conto de fadas. Sá, vc ja teve um amigo que babasse tanto seu ovo lindona?? Eu adoro me ver pensando no seu futuro, pq vai ser lindo. Como vc merece. te adoro menina do sorriso encantador e vozinha meiga. Vc é talentosa até dormindo.

Bjo de Dudu.

Anônimo disse...

Dom.

Alguns tem vontade,
outros persistência,
inúmeros disciplina,
há de se orgulhar dessas virtudes,
mas Dom... esse é único!
E dizer "poucas pessoas" é muito grande pra agrupar essa gente que tem a habilidade de incrustar os sentimentos mais lindos nos nossos corações.

Parabéns pela crônica e curta cada vez mais esse Dom.

Mene Sá disse...

Tuco, kallef, Dudu. Obrigada pelas palavras.

Roberta disse...

Mene, adorei a crônica!!. Sou sua fã. Alguem que usa as palavras como vc vai longe.

bjoka

Bianka disse...

Costumo ler bastante, muitas das vezes coisas sem sentido, mas sempre buscando algo que me acrescente, que saia do comum, que seja algo que eu ainda não vi, não sei. Parabéns menina, mesmo usando um enredo batido de sermos gratos, de não deixarmos a felicidade pra depois; você fez de forma diferente e realmente me tocou, me prendeu até o fim da crônica, até me fez ler as outras. Sucesso ;*

Unknown disse...

saber viver é uma arte!

Unknown disse...

apaixonei pelo texto! nossa! o engraçado é que issoacontece todos os dias conosco e só agora me dou conta disso!

qto ao motorista que nao deu bom dia, é cabivel de protesto viu, pq nenhum deles me respondem tbm (risos)!

beijo!

Vol!

J. MD disse...

A vida é isso. Levar e deixar seu levado pelas emoções. Não parecer somente mais um alguém que escuta preleções de como ser feliz o tempo todo e nunca viver isso de fato. Querer que a vida tenha um sentido mais onírico possível faz com que a felicidade seja muito mais leve, boa e apaziguadora. E talvez seja esse o reconforto que muitos precisam.
Parabéns pelo texto, Mêh. Te adoro

Ariane Sa disse...

Q lindo texto Mene, eh mesmo uma pena q maioria das pessoas, assim como nos, temos q nos deparar com uma historia de vida dessas para q posssamos parar e pensar sobre oq estamos fazendo da nossa vida e chegar a conclusao q somos mesmos futeis e egoistas, mas q ainda podemos mudar! Parabens pelo texto!!