domingo, outubro 24, 2010

Desequilíbrio de paz

 Engraçado como às vezes, ter equilíbrio é perder o equilíbrio. Isso é tão penoso para pessoas muito racionais, como eu. Houve um tempo, inclusive, em que eu tinha medo deste ocaso grandioso que é a vida, dessa inconstância desvairada. Pô, eu ainda peguei o tempo das cartas, dos telegramas, do pique esconde, da salada mista tímidazinha, da aflitiva e dramática consciência de onde vêm os bebês (tinha até um livro idiota- explicativo que ganhei), do picolé de R$ 0,25, do cruzeiro, caramba! Do sentar-se na porta da rua pra ver o movimento, da musica boa ressoando das caixas de som dos automóveis, do ar mais puro por aqui...É então que percebo como as coisas mudaram em pouco mais de duas décadas...hoje o delírio habituou quem estava acostumado com “banalidades”. As coisas simples ficaram tão mais simples que ninguém nem as sente, nem as vê, nem as ama.
 É por isso que eu insisto: ter equilíbrio é perder o equilíbrio. As vezes, tão somente. Viajar mais, pensar menos, amar mais, emburrar-se menos, sentir mais, mentir menos. Penhorar o coração à liberdade. O mundo é um amontoado de futilidades, mas também de utilidades. Se a vida muda, se os detalhes são, hoje, mais cheios de tecnologia que emoção e você, como eu, não se conforma muito...desequilibre-se. Perca-se, desconforme-se. Pegue a roupa mais leve e dê um passeio consigo mesmo. Não burocratize a alma.
 Sabe qual o ponto fraco/forte do equilíbrio? O amor. Ele, ao passo que confunde, salva. O amor é antiburguês. É proletário, vagabundo, irracional. O amor, quanto mais condenado à ruína, mais aproxima-se do auge...isso porque a lucidez sobre o caos da relação traz ignição forte ao coração. Mata-se e morre por amor e seu deslumbramento redundante. É a anormalidade mais normal que conheço. Um amante é um nato débil mental, visto que acredita fielmente que fará uma única pessoa feliz e será feliz, unicamente, se com ela estiver...isso, num universo de mais de seis bilhões de pessoas. Em pensar que nos amores terminados é um “quase morro” pra cá, “sem ele(a) eu não vivo” pra lá. A verdade é que o amor tem que ser sempre eterno, mesmo quando acaba. O amor não é matrimonializado, patrimonializado, não é contrato, não é ter uma casa bonita com carro na garagem e filhos brincando no lindo jardim. O amor é a irrenunciável esperança de ser livremente cativo ao outro. O amor arrebata e funda o paraíso da cumplicidade. É desequilíbrio equilibrado. Faz bem.

O equilíbrio é a paz. As vezes o equilíbrio é desequilibrar-se para ter paz. Não importa como a gente organiza a vida, se estivermos em paz...está tudo bem. Durma, acorde, ame, medite, apaixone-se, cante, dance, trabalhe, perdoe-se, respire...em paz com a vida.

sábado, maio 15, 2010

Gris


Uma crônica baseada em fatos reais, não fatos meus, mas reais.

No bar. Um jazz. Aliás, um jazz-blues-bossa nova extasiante. Eu sempre me incomodei com cheiro de cigarro, mas naquele bar, os pequenos rolos de papel manteiga sofisticado que cobriam o vil veneno deslizavam pelos lábios alheios numa harmonia colossal. Nas mãos esquerdas, garrafas de vitral verde eram a vislumbre embalagem de cerveja alemã. Nada disso me “chamava”...nem cigarro, nem cerveja, mas era algo interessante de se ver. Um bar cheio de peculiaridades. Cheio de “frescuras” como dizem alguns; contudo, os olhares, as roupas indie rock – fashion as usual, as diversidades, as pessoas, o ambiente, as cores em preto, branco e cinza, o ícone vinil e as falas nada viris me causavam uma sensação de estar fora. Fora da cidade, do estado. Preconceito meu? Sim, eu sei. Mas foi o que pensei.

A musica estava sensacional. Musica sempre me diz muita coisa, se não for boa, nada fica bom. Os amigos eram maravilhosos. Mas eram só amigos. Senti-me sozinha, boemia, com frio. Sabe aquele frio que só te sugere um longo suspiro que na verdade queria dizer “cadê alguem para me abraçar ou oferecer um casaco?”. Amigos fazem essas coisas, mas definitivamente não é a mesma coisa. E a coisa é essa necessidade insana de fazer da vida um jogo a dois. Dois indivíduos, duas dores, duas renúncias, duas musicas, dois corpos, dois multiplicado por mil preocupações. Agora me diz: pra quê? Por que? Foi então que tocaram “chasing pavements” e eu parei de pensar nessas indagações infundadas, voltei à fútil carência de cada dia. Voltei à boba sensação de viver numa comédia romântica...mamãe sempre disse que a vida não era um filme e muito menos seriado. Desejei ser atriz só pra ter o gostinho de enfeitar a existência de quermesse...puro ato farsesco de desejos contidos. Contidos, embora, essenciais.

Foi então que o vi. O vi com um copo de cappuccino gelado pedindo à banda pra tocar um pop-dance. Gostei de pronto. Eu estava de short-jeans-surrado e uma blusa leggie de marca. Ele estava lindo...do jeito que me vestiria se tivesse nascido homem: camiseta lisa marrom, calça jeans reta, quase skinner e...olhamos ao mesmo tempo como um tiro para nossos pés que, coincidentemente estavam revestidos por um “encardido” allstar. Ele sorriu pra mim, com um daqueles sorrisos de canto sugerindo uma aproximação perigosa. A distancia entre nós era considerável e eu dançava de olhos fechados, deixando a música penetrar meus sentidos e assim, não ter vergonha ou receio de ser sexy. Soltei os cabelos numa aparição cinematográfica e abri, então, meus olhos. Lá estava ele..quase do meu lado; fiquei inepta, tonta com os olhos daquele cara, tremi, oscilei os sentidos, suei e, num paradoxo àquelas sensações, deu um sorrisão grande, daqueles que todo mundo elogiava em mim. Deu certo. Ele se aproximou mais...o perfume se espalhou, arrepiei. Reparei no jeito que ele passava a mão na nuca e não sabia onde colocá-la depois; na modo como continuava a me encarar...foram uns quinze minutos de troca de olhares e nada mais. Sutilmente ele mordia o lábio carnudo inferior, umedecendo-o. Eu enlouqueci, perdi o frio, perdi a consciência, perdi a noção do tempo.

Conversávamos com o corpo, com os olhos, com os lábios. Um paralaxe de semiótica teatral. Nada farsesco, nada usual...era a tal da “química”. Ele não pediu e muito menos deixei, mas nos beijamos. Morreria feliz, era tudo o que eu queria num beijo. Ele sabia milimetricamente o que eu ansiava e eu, parecia adivinhar os desejos dele. “Surrealista, mas encantador”, frase do texto de “Um lugar chamado Notting Hill” que descreveu aquele lance. Tudo aquilo foi fluido e arrasador, insano, uma bobagem...embora bom, muito bom. Minha mente abrigava um amontoado de inutilidades enquanto conversávamos, a maxilar dolorida de tanto sorrir, deliberadamente fascinada, um bourbon.

Infeliz foi a hora de ir. Meus amigos me puxavam para fora do bar. Ele pediu meu telefone e eu o dele. Obviamente não ligaria primeiro, é a ordem natural das coisas. Segui para a porta com um carnaval no peito e um suor frio nas mãos. Entrei no carro com uma sensação de despedida do tal espetáculo vesperal de uma doce paixão. Incipiente, mas paixão. Sim, fora pueril, nada exagerado, fora tenso e ao mesmo tempo leve, refrescante. Que fazer? Talvez percorrer as ruas, ocultar a ansiedade, os objetos, ou ainda, expor-me a tudo, sem receio, sem culpa nem desculpa.

Outro dia, pela manhã. Os jornais anunciavam um assalto da noite anterior num determinado bar. No que fui. Cinco jovens feridos e dois mortos que tentavam fugir para não serem reféns. Um dos mortos: o cara que conheci, beijei, sonhei e me apaixonei. Agora, só imaginem como fiquei, não tentem sentir o que senti. De fato, um coração gris.

quinta-feira, abril 15, 2010

"O samba, a prontidão/e outras bossas,/são nossas coisas(...)"

Bem como a vida exprime a mistura e o encanto de ser unicamente plural, há, dentre outras coisas interessantes, a bossa nova. De um emaranhado de etéreas sensações, faz-se esse jazz-samba que alimenta paixões. A bossa nova, desde o seu surgimento quase que espontâneo, um paradigma musical autenticamente brasileiro, nasceu preciso..., preciso para viver. E viver, na alma do artista é revolucionar o marasmo dom de manter-se omisso. Cantar, por sua vez, é fazer uma faxina na alma e dançar é, singelamente repousar sobre um gozo fatigante. “Isso é bossa nova, isso é muito natural...”. Tropicália, bossa, clube da esquina...as eras perduram e aquecem os corações saudosos. Até quem não nasceu nesses dias tão brilhantes sufocam em nostalgia.
- Bossa nova é iguaria fina – disse o velho Cajazeira enquanto sussurrava “desafinado” e dedilhava o violão.
- Quero morrer ao som de “wave”, na beira do mar – suspirei .
- Vire essa boca pra lá menina! – retrucou – Pense em musica enquanto tiver ar nos pulmões.
- Como a musica brasileira consegue ser tão amorosa, leve e refinada hein seu Cajazeira? Eu proponho um brinde! – ri ao ver o sorriso largo de Cajazeira.
- É o prefácio Manoela, um prefácio da vida. – pronunciou em tom de voz baixo e sonhador enquanto erguia a taça de vinho.
- Boa noite, vocês me desculpem por estar interrompendo a conversa, mas é só um minutinho. – disse um rapaz que se aproximara de nossa mesa.
- Ah, pois não. – disse Cajazeira surpreso.
- Bem, não é a senhora que é a cantora? Aquela loirinha que canta? Minha filha está ali me perturbando dizendo que é você. – os olhos do homem fixaram-me.
- Cantar eu canto, mas eu não tenho certeza de que sou eu a cantora a qual sua filha se refere.
- Kelly minha moleca, vem cá! Vem ver, é ela! Sua chará! – a adolescente correu.
- Sua cha..?
- Olhe, eu não quero intrometer nada viu? Podem continuar conversando...mas será que você poderia fazer um sonzinho nesse bar? Assim, ao vivo...é que minha Kelly faz aniversario hoje e ela é sua fã sabe?
- É, talvez ela possa – disse Cajazeira rindo com o canto da boca numa expressão maldosa.
- É, talvez eu possa.
- Você se incomodaria se antes eu “batesse” uma foto de vocês duas?
- Eu...
- É pra ela colocar ampliada na parede do quarto.
- Mas..
- Você pode encostar mais pro lado esquerdo?
- É...
O flash foi tão forte que devo ter ficado com os olhos fechados na fotografia. Levantei rapidamente sem escutar mais o que o homem dizia e puxei Cajazeira comigo para o pequeno palco do bar. Cantei “samba de verão” sorrindo para a tal menina Kelly e seu pai que tanto me pirraçou. Eles pareciam felizes, embora insatisfeitos.
- Psiu! Escute! – sussurrou Cajazeira para que ouvíssemos o comentário do pai da garota já na saída do bar: “- ela não cantou ‘Barbie girl’ não é mesmo filha? Aquela que você mais gosta...” .
Rimos. Rimos e descobrimos que apesar da confusão, a fotografia pendurada na parede do quarto da moça será a da jovem cantora anônima de bossa nova. E olha que eu tentei avisar, juro que tentei. Rs.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Inspiração.


A vida tem sido tão cool quanto um wayfarer e dias ensolarados. O mundo está tão misturado, tão desastrado e virado do avesso que anda aproximando perigosamente razão e emoção, ambos em puro e vil destaque. Os sonhos são quermesse. Os detalhes a gente compra do destino e lança sobre um dos caminhos que as escolhas permitem que a gente siga. O tempo? Esse voa. Voa tão rápido que o clichê “dê tempo ao tempo” sugere hipérboles sutis.

A verdade é que o circo chegou no meu peito. Chegou depois de um natal incomum, dizendo-me, que ia ficar. Chegou como tudo na vida deveria chegar, de surpresa. Chegou rápido, puro e simples. Depois da vã tolice de tentar explicar o coração através de etéreas presunções de auto-ajuda ambulante; veio a sensação pueril da paixão. Depois das noites de sono interrompidas por um choro contido; veio a esperança cravada num par de olhos cor-de-mel. Depois de tanto desacreditar numa proteção apartada de falsidade; surgiu um abraço que teletransporta a respiração. Depois de desistir de sublevar a alma..um beijo simplesmente a completa.

Seja bem vinda de volta, inspiração. Se trazes pra mim a contradição, que seja! Whatever! Pensar em como bossa nova e forró podem coexistir num mesmo plano, esquenta a cabeça, mas, sobretudo, o coração. O amor tem dessas coisas.

domingo, novembro 08, 2009

Divã

Na sala com um psicoterapeuta...

- Sabe, demorei pra falar sobre o amor... Não sei nem mais escrever cartas de amor, poemas de amor. Ainda que haja uma explicação para tal fato, não há racionalidade nem sequer certames, tópicos, ilustrações. Irrefutavelmente, existem coisas que eu sei que acontecerão de novo, embora eu também deseje que nunca mais aconteçam. O sobrenatural é deveras inebriante ao passo que a tragédia está sempre bem presente na vida real, irracional, etérea.

Devaneios confusos norteiam o coração. Adquiri um defeito camuflado por uma nuvem de ingenuidade sob os olhos: a ilusão alcança a todos os seres. Caso soubesse convictamente deste acaso, teria me debruçado sobre a riqueza material e imaterial; intransponíveis. Brincar com o amor tem lá suas recompensas, quer sejam boas, quer sejam ruins. O perigo, definitivamente, malogra o excitamento de um coração vaidoso. Será que eu também caí neste encantamento? Será que a decepção deixou meu ser abjeto?

É certo, pois, que não fica impune, nenhum olhar mortal sobre mim. Pior de tal fato é a ciência disto nos lampejos de meus pensamentos. Revogo o interesse físico e metafísico até que a sede cativa à paixão assenta-se cruelmente em uma desilusão, quase que circunstancial. Alem de encantar, saberia desencantar sem deixar mazelas, impregnando um rastro da mais sublime alteridade.

- Quem és? - Perguntou o Dr W.

- Sou um anjo maquiavélico encantadoramente irônico. Um inferno ético que assola o campo das emoções e sentimentos engessados ao meu redor.

- Que farás quando achares um amor?

- Não faço a menor ideia.


Para aqueles que ainda acreditam no amor, mesmo não fazendo a menor ideia de como ele virá...

domingo, agosto 23, 2009

Vicissitudes

O calor percorria meu corpo despretensiosamente naquela manhã de quinta feira. Eu estava atônita e perplexa com a mudança brusca do tempo. No dia anterior, o vento frio dava-me satisfação de um inverno reminiscente, empolgante, promissor. Se há alguma mazela que destrói meu humor e disposição para ir ao trabalho cotidianamente, isso se chama “dia quente”.
Ofegante, apontei um dos braços para que o transporte coletivo parasse mesmo depois do ponto. Estava atrasada. Era tênue a expressão em meu rosto; suada e tensa, eu me lamentava franzindo a testa por um pessimismo latejante de mais um dia estressante.
- Bom dia – eu disse num tom de extrema obrigatoriedade e eventualidade. O motorista não respondeu e me virei complexada...havia um fone em seus ouvidos.
Prossegui em direção ao cobrador e uma senhora sentada à cadeira próxima lhe perguntava em que ponto descer para encontrar uma lojinha perto do viaduto da Av Régis Pacheco. Eu atravessei a fala do cobrador e instruí a senhora que, por conseguinte, me retribuiu com um sorriso amistoso. Sentei-me, pois, adiante, ao lado esquerdo onde as janelas estavam escancaradas e a brisa adentrava-se presunçosa. Não havia ninguém ao meu lado. É curioso notar a disposição dos seres humanos que usam ônibus; sempre procuram um lugar em que ambos os assentos estejam vazios. Gostam da solidão e o olhar divagando sobre as janelas empoeiradas, “pensam na vida” com o silêncio fugidio interrompido pelo grosso barulho do motor do veiculo. Alguns sentem sono, outros saudade, já outros só observam enquanto muitos outros sonham. A fuga dos pensamentos é sempre boa, mas quando não possuem sentido ou lógica são ótimas.
Propositalmente olhei fixo para uma moça sentada do outro lado, mas na mesma direção, que deveria ter mais ou menos a mesma idade que eu. Tentei não olhar tanto, mas chamaram-me a atenção algumas falhas em seu couro cabeludo disfarçadas por um loiro, liso e ralo cabelo. Percebi que dois rapazes sentados atrás da moça cochichavam pelo mesmo motivo que chamara minha atenção. Tentei acordar do hipnotismo que me prendera à face fria, pálida e doente da jovem. Não consegui. Levantei-me num impulso curioso.
- Com licença, posso me sentar? – indaguei à moça.
-Ah sim, claro. – ela disse quase num sussurro.
Após uma breve apresentação formal e um silencio posterior instigante, eu disparei:
- Humm, não quero parecer inconveniente, mas eu estava observando você do outro lado – por um instante tive medo de ser intrometida, mas algo me impulsionava e quando eu menos esperava... – o que houve? Digo, você esta bem? – respirei num misto de alivio e culpa. Ela riu de canto.
- Eu tenho câncer. – eu não consegui uma feição assustada ou qualquer uma que demonstrasse o que realmente sentira. Saí de casa impregnada por um paradigma do meu mundo egoísta e meu pavor constante pelo calor e agora estava à frente de uma realidade bem mais ávida. – E você é a primeira pessoa “desconhecida” que me pergunta em vez de ficar só olhando meus poucos fios de cabelo na cabeça. – ela completou rindo de novo, eu assenti.
- Você se sente feliz? Tipo...apesar de tudo? – gaguejei.
- E você também acaba de ser a primeira pessoa que me pergunta isso me vez de “como vão as sessões de quimioterapia?” – ela parecia satisfeita com o subjetivismo de minhas perguntas, que para ela, eram incomuns. – Sou sim - disse complacente – o medo de não ter tempo para realizar tudo que quero, faz com que eu viva intensamente todos os dias. Ninguém vive aguardando uma morte acidental, ainda mais na minha e na sua idade – explicou pausadamente - mas eu aguardo a morte que, de fato, é prevista. E pode acreditar, isso me faz “ter pressa” em ser feliz.
Emudeci. Meus olhos ensopados com lágrimas teimosas diziam para a moça: “você tem toda razão”. E antes que eu pronunciasse algo, meu ponto chegou e eu tive que me levantar rapidamente.
- Até outro dia – disse.
- Até – o sorriso escondido nos lábios ressecados da jovem despontou lívido.
O forte odor de gordura que era expelido pela pastelaria em frente ao ponto de ônibus das minhas paradas cotidianas nem pareceu me incomodar, como de praxe. A realidade fria aquecera meu coração fútil. Vicissitudes; o nome que dou à fantástica mania que a vida tem de nos ensinar a viver.


Crônica que dedico a todos que anseiam a felicidade leve, boa e apaziguadora.

quarta-feira, agosto 12, 2009

O casual motivo de amar a arte.


Eu perderia qualquer desejo de viver se meu ser fosse condenado a morrer sem a luz dos palcos, sem o suor lívido na feição caricata e sem o lampejo dos mil desenhos no espaço formados pelas mãos em movimento. Não há lógica, fôlego, frenesi e nem luar para um ser mortal e vil que não saiba amar apaixonada e irrefutavelmente a arte.

A arte toca meus lábios gélidos com a ponta dos dedos como quem hipnotiza graciosamente esperando um sorriso de canto, desgrenhado e verdadeiro. E nesse emaranhado de sensações vejo-me perdida no brocardo de que a felicidade é para poucos. E os poucos são aqueles que vivem! E os que vivem, aqueles que fazem o que gostam, o que amam...e isso, definitivamente, não é laborioso trabalho. É sim, o brilho emitido pelos olhos pasmos, etéreos, cativos e relutantes. É o vigor que sobressai de uma quermesse sob o sol de um Sábado, é o solfejo das mais lindas juras de amor, é o sonho que sussurra as salvas de uma multidão posta de pé como humilde recompensa a corações latejantes, dóceis, honrados. É esquecer-se da mediocridade e dirigir-se cegamente ao revés do incomum, da falta de dinheiro; entretanto, da ausência de paz.

Calei-me pífia diante da desilusão ao perceber a paixão pela arte agonizando às benesses do descaso alheio, incompreensível. Debrucei-me sobre o medo quando vi o retrato real dos famigerados culturais e seus farsescos risos justificados pela falta de conteúdo, enquanto a sede pelo conhecimento ruge rigorosamente sobre os dias escassos. Minhas lágrimas, sobremaneira, têm a esperança intuitiva de encontrar o que procuro.

Podem roubar-me as forças, os bens...a juventude; mas nunca subtrair o fogo e a pólvora, cintilantes num triunfo de amar, incondicionalmente, a arte. Podem até condenar o que vivo como surreal, impróprio. Mas é encantador, inebriante e eficaz em convidar a felicidade para lapidar os dias comumente vazios e sem cor. A arte liberta o conhecimento abstrato e racional, claro e sombrio, lúcido e insano, altivo e melancólico, estonteante e arriscado...inteiramente voltado à graça que é viver.

sábado, abril 11, 2009

Tragédia.


A chuva parecia adormecê-la um pouco. Os olhos se entreabriam vagarosamente numa sensação ficta de cansaço e o cobertor pedia-lhe os pés. L sonhou com seu grande apartamento e a vista luxuosa obtida pelos metros de vidraça num formato côncavo próximo a sala de estar. Ela lia um livro que lhe arrancava um sorriso de canto e aquosidade nos olhos atentos e sutis quando alguém apareceu a pôs-se a delinear seus cabelos castanhos com as mãos. N vestia uma camisa branca bem passada e seu sorriso era tão alvo quanto aquela. Estava infalivelmente charmoso.
A decoração era poética, moderna, a via crucis da inveja mortal. Até as vestimentas de L e N contrastavam, reluziam com a penumbra que as lâmpadas causavam no gesso moldado do teto. N, encostando-se no enorme sofá Barddal bege escuro, fechou o livro em cuja apreciação de L debruçava e deu-lhe um beijo. O beijo, por sua vez, desmarcou a pagina do romance e marcou cada batida e respiração ofegante de L...parecia o primeiro contato dos dois; parecia o céu indeciso se era dia ou noite, parecia uma canção que nascia por si só, parecia um laço que desatava com o vento; parecia, e de fato havia cortina de fumaça delatando paixão incipiente nos botões descasados.
E mesmo nesse emaranhado de desejos N olhava para L como se a claridade saísse de dentro dele para dar vida a ela. Em forma de sussurro ela proferia: “te amo, sempre” e o fazia todas as noites antes de dormirem porque acreditava que os sonhos noturnos seriam melhores. Por conseguinte, a vida seria irrefutavelmente melhor. L assim agia mesmo quando a discórdia penetrava a mente e constituía mazela...mas suas palavras salvavam as manhãs em que o perdão apresentava-se nas emoções adeptas ao welcome.
Naquela noite, dormiram após conversarem e gargalharem ao dispor sobre as lembranças da vida. A face de L sobrepunha-se ao peitoral de N e uma das pontas do lençol arrastava-se pelo piso artesanal do quarto. Os perfumes se confundiam, o relógio poderia parar, entretanto, corria impiedosamente.
O telefone pôs-se a tocar e L tomou um susto; acordou e ainda possuía o romance sobre o seio. Na linha falava alguém do hospital chamando-a com urgência. O sonho bom esvaiu-se de sua mente quando, chegando ao hospital, presenciou N vestido com camisa branca ensangüentada, em estado inconsciente e mãos frias. Sentiu-se impotente diante de tal circunstância e aguardou revoltosamente por respostas. Horas depois, recebeu a noticia de que N falecera. L sonharia, a partir de então, a mesma coisa todos os dias até que as manhãs a dissessem que logo logo chegaria o momento de dormir novamente.

sábado, março 14, 2009

Caso pra contar.


M. um dia deferiu o pedido de R. Respirou fundo numa noite estranha em que a lua era crescente e o vento de primavera. Engraçado é que seu coração sorria estupefado enquanto as mãos suavam; o ventre se contorcia num “quente-frio” estonteante no mesmo instante em que seus olhos brilhavam. Os tempos se resumiram em incertezas, frenesi, depois certezas, detalhes, crise, festa, depois lágrimas, incertezas ressurgentes, saudade, sempre saudade, certezas absolutas...e por ai foi. O certo de todo ato, por mais duvidoso que fosse é que havia amor. Amor daqueles para arquivar, documentar, fotografar, contar aos outros, musicar, dançar, pintar, rir e chorar. M era moça que não fazia esforço pra encantar, e ela sabia disso... atrás da fragilidade e indecisão existia uma personalidade notável. R sabia que podia e tinha o poder de fazê-la feliz... atraente, inteligente e tão diferente dos outros seres humanos mortais que M assim o identificou na primeira vez que se olharam nos olhos. Havia um “Q” a mais nos dois, eu vi que havia.
Intrigante como existia trilha sonora para os fatos narrados e vivenciados por M e R. Espetacular ver o compasso dessa dança...a musica no silêncio, o sorriso desses olhos, o tremular desses lábios, a luz desses entremeios escuros, as flores e frutos dessa terra seca... Onde nada havia, suas mãos construíam, suas vidas se encontravam e suas almas decoravam o tempo e o espaço de cativantes enfeites. Uma vez até peguei uma nuvem seguindo-os para protegê-los do sol; e um dia que a chuva os pegou para tornar o momento especial!? Outra vez foi Felicidade me contando segredos até do futuro deles... desceram-me lágrimas e com elas, aquele riso que ofega a respiração.
Já peguei M chorando algumas noites de saudade, de amor, de preocupação... o consolo era que pela manha a primeira coisa que ela fazia era pedir ao vento que deixasse o recado na porta de R de que ela o amava. R sempre desejava a felicidade, o sorriso e a paz de M... fiquei inepta quando presenciei o cuidado que ele dedicava a ela. A verdade é que sempre foi metafísico e assim seria sempre. E ainda há aqueles que não acreditam no amor... bastaria estar um dia nos pensamentos de M ou R para crer.
Flagra: M escrevendo crônicas e uma insistente onda de insatisfação rondando seus sentimentos...ela sabia que era preciso mudar o rumo das coisas, que era preciso estar por perto dele. R resguarda bem suas sensações...mas vi em M que ele precisava ser acolhido pelas promessas da vida. Qual o próximo capitulo? Certamente algum que terá como desfecho o grande mistério e o real paradoxo da vida: a dor que cura, o barulho que silencia e o vento que paralisa... amor em todas as suas formas e conjugações.


sábado, janeiro 24, 2009

Presciência


23 de março de 2009, 7 da manha. O céu estava nublado e mesmo assim no meu sorriso era verão. Sorri antes mesmo de abrir os olhos porque sabia que estava em outro lugar...atrás da janela não havia mais um muro e as paredes do cômodo não eram mais verdes. Custei a compreender.
Senti rapidamente a conseqüência de saltar na vida; queria visitar Paris e morar em Nova York, um pouco menos de 5 anos...ate acordar, me sentir feliz por estar num outro lugar e desejar ir a lua, quem sabe. Depois do sobressalto, levantei-me para começar o dia. Fiquei confusa por não encontrar os objetos nos lugares de costume, mas senti-me bem com as mudanças...havia coisas para chamar de “minhas”, lugares para chamar de meus, amigos por perto, uma historia surreal de um casal apaixonado em cujo protagonismo eu me encaixava...uma varanda pra ver a vida em sua mais real efervescência, cores, sons..evidências. Chegava a hora do pensamento de praxe, a “oração” matutina de meus desejos: deixar de batalhar por uma vida-ideal-world business-super-um-saco e querer ver no que dá apostar na simples e sensata vontade de ser feliz. Viver a “realidade” é um preço que se transformou num masoquismo social... Todo mundo deixa de fazer o que gosta e o que sabe pra sobreviver, inclusive eu. Entretanto, estava eu ali disposta a mudar. Tá que mudanças nunca foram meu forte, eu sempre tremi as pernas com isso, mas também sempre fui consciente de que o caminho da mediocridade não era meu e nem nunca será.
Lá fui eu passar o dia num farsesco ambiente que rege a vida e o modo de produção do nosso século...eu sempre tive um “Q” de admiração pelo marxismo..não estranhem se eu disser que o trabalho assalariado não dignifica, mas isso a gente conversa depois. Mas enfim, “paguei a língua” indo trabalhar no ícone do capitalismo e o pior, vicei no meu trabalho. Passaram-se as horas, as pessoas novas, o ambiente novo e eu saí de la respirando o ar que almejava, o ambiente que almejava... as companhias que almejava. Era um emaranhado de coisas perfeitas, coisas difíceis, mas repito, perfeitas.
Ainda era período de férias universitárias...estaria de volta apenas em Julho e, por conseguinte, a noite estava livre. O dia terminaria com toda certeza e intensa presciência, com um beijo de boa noite no ícone dos meus esforços e amores. Dessa vez não seria um adeus..aliás, jamais seria adeus, não novamente.
24 de Janeiro de 2009, 7 da manhã. O céu estava nublado e os olhos cheios de lagrimas. Vi o muro atrás da janela e as paredes do cômodo eram verdes. Não foi um sonho, foi o futuro.

sexta-feira, agosto 15, 2008

...


Parece simples pensar numa resposta quando te perguntam o que é a saudade. Até hoje, pensei que sabia o que era.
Sabe aquele lance de que sentir fome é muito mais intenso que a vontade de comer? Acho que saudade é mais forte que sentir a falta.
Tentei por muitas vezes “tapear” a vida com reações normais e aparentemente sadias...mas a saudade, hoje, me confundiu os sentidos, me fez mastigar as jujubas em vez de lamber o açuquinha antes (como de costume), me fez perder o ônibus..me fez pegar um táxi, me fez usar um perfume antigo, me fez perder a fome (isso é bem raro), me fez sentir um gosto só porque um cheiro percorreu os ares até meus poros sentirem. A conseqüência de praxe; “arrepiei”... essas coisas de ser-humano bobo, mas exageradamente humano. Eu não queria falar que o “friozinho na barriga” também rolou, mas se é pra jogar limpo, eu confesso.
Não, não chorei. A corrosão foi só por dentro. Ri e percebi tudo ao meu redor em câmera lenta. Estava frio e o casaco não esquentava nada. As pessoas falavam, mas ressoava em mim, algumas canções iniciadas em dó. Foi estranho, mas foi real. Foi intenso, mas desmanchou as esperanças. Foi sonho e pesadelo, mortal e etéreo. Simplesmente foi e eu conheci o que era saudade.



" Lembrei do dia que te conheci
Lembrei de quando segurei sua mao
Por que e que tudo tem ser assim
Lembrei de quando vi voce partir

Mas se voce voltar
Tras de volta meu coracao
Mas se voce voltar
Nao esquece do meu coracao
Que nao quer parar
Teima em bater
Por voce" (Leo Verão)

sexta-feira, julho 25, 2008

Nothing

Busca loucura sadia, pois a realidade é fragil.

quarta-feira, junho 11, 2008

"Seja bem vinda, ...Felicidade!"


Sabe aquele livro bom??
Releiam.
Sabe aquele filme sensacional? Ou até aquele que nem era tão bom, mas que foi visto com a pessoa certa, na hora certa e no melhor lugar?
Então...relembrem.
Sabe aquele vinho bom? E aquele almoço fabuloso? Aquela festa inesquecível?
Viva e sinta tudo de novo!
Sabe aquele amor cheio de historia pra contar?
Aquele beijo que entorpece?
Aquele olhar estonteante?
E aquele cheiro que divaga o pensamento e desnorteia os sentidos?
Pois é... aproveitem.
Não só aproveitem, mas repitam a cada nascer do sol:
“que seja eterno enquanto dure”
E que dure enquanto existir eternidade...
Enquanto o calor humano for a melhor solução pra qualquer tipo de frio,
Que dure e subsista à saudade,
Que seja forte e paciente,
Divertido
Consciente!
Que surpreenda...
Que seja tão agradável como tardes de sol,
E tão gostoso quanto às noites com chuva...
Que envolva
Que permeie a certeza de forma surreal,
Que fuja do pseudo-romantismo
Pra ser intenso...incrivelmente intenso.
Que seja como um filme bom,
Mas que não acabe...
Que seja como o meu romance,
Meu desejo, meu mistério.
Alias, desejo a todos um amor como o meu...
Um “par perfeito” como o meu,
Risadas como as minhas quando ao lado dele estou..
Loucura como a minha que só encontra sanidade
Com o seu abraço,
Batimentos cardíacos como os meus quando o vejo..
Respiração cronometrada pelo simples cheiro...
Pelas palavras ao ouvido, pela proteção...
Desejo um dia dos namorados feliz pra quem namora...
Esperançoso pra quem não namora.
Mas pra mim e pra ele...
Ahhh... os dias sempre foram incomuns.
O sol desponta e nosso coração converte-se em templo
De um amor puro e suave...
A noite vem e a esperança brota de uma respiração profunda
Que anuncia: “Seja bem vinda,... felicidade!”.


Amor...sem mais palavras
Te amo. indubitavelmente.

quarta-feira, maio 28, 2008

Notas do acaso.

(Cola do outro blog...só para usuários fiéis a esse..rsrs)...a pedidos.


Nota de prioridade

Nada é suficientemente sincero como a

Insatisfação.

Imagine-se no ano de 2060. Mas também não se imagine protagonizando os jetsons, só sinta o ar pasteurizado entrando nos pulmões. Se você estiver nos plenos 20 e poucos anos como eu, imagine-se velho e feliz; jamais obrigado à fila do INSS. Perceba que a juventude não é eterna, mas que a cara amarrada além de aumentar as rugas, torna chata a experiência.

A algumas centenas de kilômetros de você, haverá lugares conhecidos…e a apenas 10 passos de você, a lembrança eternizada em papel de fotografia ou em qualquer cd que esteja sobre a mesa do escritório. A sua volta, livros empilhados, conhecimento colecionado, releitura das 5 da manha…quando o sono se esvai em detrimento da idade.

Imagine-se assistindo a filmes e tomando chás ou cafés que outrora eram intragáveis. Ou ainda, manifestando-se com aqueles clichês: “mas não era assim”… entretanto, pense em você divagando sobre as aventuras mais cabulosas de sua vida e contando-as como feito heróico. Coisas que no exato dia eram segredo de Estado, mas que agora (o futuro), traz a saudade e o bater compulsivo no peito.

Nota de relevância

Não existe a vida intensa pra ser contada,

Sem os arrependimentos que a acompanha.

Não existem outros meios de contemplar a dinâmica da vida, senão perigosamente. Para tanto, é preciso insatisfação. Por favor, não me entenda mal, a insatisfação que sugiro é aquela que joga a gente de um trampolim num salto mortal rumo à profundidade desconhecida, porém necessária, construtiva. Conformar-se é fácil demais para um ser acostumado a desafios, superações. Chegar ao ano de 2060 talvez nem passe à sua cabeça, talvez você nem chegue lá, ou ainda, você chegará tão adiante, que nem se lembrará de tudo o que já passou. Sob todas as hipóteses, a insatisfação com os lugares, com os conceitos emoldurados, com as regras, com a falta de pessoas, com o excesso delas, com o que dizem, com o que fazem ou omitem, com sei lá..o sexto dos infernos (porque o quinto já esta lotado…) e qualquer coisa a mais, faz a gente sair da zona de conforto imutável para a eterna incerteza criadora do sentido da vida; ser livre não tem preço. Chegar aos 70 e poucos anos dizendo aos quatro ventos que se viveu intensamente, também não tem preço.

Desejo aos jovens, juventude. Desejo aos anciãos, acima de marcas da idade, uma alma juvenil e saudosista.

sexta-feira, abril 25, 2008

Acontecer.


Mas por que exatamente a vida segue?
Por que nos consolam frequentemente com essa historia de que “a vida segue”?
Ela poderia simplesmente acabar quando a loucura nos sobreviesse,
Ou quando as circunstâncias se tornassem penosas demais,
Com martírios demais,
Sufocantes demais e
Com intensa sorte de menos.
Na verdade, um mundo com uma vida que não segue, jamais conheceria
A coragem
A determinação
A força
A saudade, o amor, a maturidade,
A sabedoria, as historias pra contar, o riso...o choro também;
O esforço, o sonho e a própria razão humana
De tão pura e simplesmente dedicar-se à arte de viver...
E de seguir, claro!
A serotonina precisa ser vendida por aí...
Os moldes de atuação estão mecânicos,
Severos,
Chatos. Quase ninguém mais ri à toa...
Conselho: precisamos comer feijão.
É que ouvi dizer que feijão é rico no precursor da serotonina...
E nem me pergunte quem é o tal precursor.
Mas é isso, as pessoas estão castigadas num cubículo onde se possui 24 hras para ser tudo...
Menos alguém normal.
A maioria se conforma e vai caminhando no escuro...
Uma minoria se impõe
E acaba achando a felicidade.
Felicidade...
Se a vida, de fato, não seguisse,
Seria complicadíssimo ver felicidade a passear
De saia e chinelinho.
Seria incompreensível assistir as coisas passando...
Óbices superadas...
Ver a vida seguir é caminhar com ela,
Ficar olhando é só o primeiro passo pra rabiscar
De cores o que já é, intensamente preto e branco.
Seja com passos largos, seja cautelosamente.
Seja a pé, seja de avião...
O que, na verdade, importa
É acontecer.

sábado, março 01, 2008

Anticurso de Progresso.


A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. (Mário Quintana)


O homem anda, encontra a pedra e desmantela. Os raros que persistem em seus objetivos humanisticamente sinceros são criticados no percurso pra depois serem reconhecidos como mártires...enquanto na verdade, na mais sutil verdade, todos os homens deveriam estar no “topo” da ingenuidade... Da mesma ingenuidade percebida no filme “Meu nome é radio” (quem ainda não viu, vale a pena ver). A roda é uma “mão na roda”, é um “jeitinho brasileiro” que sempre alcança todo o Mundo. E todo esse Mundo business for all é regido pela preguiça; pela preguiça insistente, mesquinha, instintiva e é claro, cretina conforme manda o figurino...chega a ser uma nota de Dólar com a fotografia de George Bush abraçado a Fidel Castro. Mesmo assim, reina a preguiça. E viva a preguiça!.
Viva a riqueza que olha a pobreza de longe e a manda pro inferno...preguiça cartesiana de enxergar que são todos farinha do mesmo saco...ouro do mesmo cofre; que seja! Viva as necessidades cognitivas e interacionais do brilhantismo humano que criam um povo sacana. Que se eternizem os biscates de caráter!
Viva a musicalidade do “creu”. É a mais perfeita mostra da pior preguiça: a preguiça de pensar. E olha que Nietzsche avisou: “pensar dói”.
Viva a natureza solapada, a civilização egocêntrica, a globalização não-global, as negociações hipócritas, os “disse-me-disse”, os preconceitos vestidos de ética fajuta...
Enfim, viva a todas essas RODAS inventadas e fadadas ao PROGRESSO caótico: o que anda pra frente, mas não evolui.

domingo, fevereiro 17, 2008

Síndrome da adultescência (versão Samene Richard)


Há tempos que eu tento escrever alguma coisa bacana...simplesmente não consigo. Vivi dias que mesclaram frustração diurna com boas jogadas a la “bem com a vida” no fim de tarde. Olho o relógio de minuto em minuto pensando que alguma novidade vai discar o meu número pra me contar segredinhos da vida, ou então me oferecer alguma oportunidade irrecusável. Torço pra que as noites sejam longas e os dias mais curtos...o pior é que é sempre o contrario. A verdade é que as coisas andam meio embaralhadas; ou sou eu quem está sofrendo de miopia? O termômetro verifica 50° do meu corpo, e eu não estou com febre; será minha cabeça num lapso exageradamente quente?
E no meio de tantos neurônios tontos eu dou de cara com uma coisa que eu chamo de síndrome da adultescência. Nada que meus 21 anos recém completados não denunciem. Esse lance de provar pra vida que as coisas são pequenas diante da sua capacidade; de desacreditar em destino certinho, medíocre; de querer dar uma de maduro o suficiente pra fazer e acontecer; de trilhar caminhos diferentes dos de costume pra ter o orgulho de dizer que chegou ao destino esperado; de ter o prazer de olhar um adolescente qualquer e dizer a mesma babaquice: “é, eu já passei por isso.”; de ficar só e se sentir bem estando só; de morrer de rir na rodinha de amigos relembrando as idiotices remotas; enfim, de todas essas coisas que conotam independência e mostram o status no franzir da testa onde está escrito: “yes, eu mando em mim!” embora a consciência sinta um desespero quase que alérgico. É engraçado.
Essa parte da juventude tem um slogan de diversas responsabilidades fundamentais pra que a gente se torne um ser - humano “legal”. O processo é um tanto quanto esquisito, mas o “chegar lá” é sim, muito legal. Trata-se de encarar as coisas de um jeito bem simples, sem atropelar as etapas, sem inventar tropeços precoces, sem excessos, sem desânimos...sem essa cara de 60 anos estampada no kilos de preocupações desnecessárias. Ser um “adulto” não é lá um bicho de sete cabeças...mas um de dez! Só que a gente esconde umas duas cabeças com boas risadas e bons amigos, outras três com um bom romance pra contar daqui a algum tempo pros filhos; mais duas a gente elimina viajando pra qualquer lugar cujo destino esteja no rol de promoção em qualquer site de qualquer cia aérea, ônibus, ou jegue disponível; outras duas cabeças a gente corta fora do bicho quando a alma de criança aflora por algum motivo e brincamos de ser feliz na maior pose ingênua, gentil e excentricamente sincera...Ahhhh, e já que a gente precisa - estudar, pensar, contar, escrever, viajar, cantar, dançar, viver - pra tentar algum dia ser um alguém de “meia idade” satisfeito...deixaremos a ultima cabeça no lugar! Afinal, até lá teremos que merecer pelo menos um cartão de crédito sem o maldito limite da conta universitária e é claro, juízo na cabeça (que a gente acha já que tem).

quarta-feira, janeiro 30, 2008


Feliz aniversário pra mim.
Estou mesmo precisando que seja feliz.
Feliz e simples, como sempre foi.
Quero que as surpresas esse ano não sejam tão evidentes,
Que sejam mais irônicas, mais perspicazes, mais inteligentes.
Quero amigos, lembranças boas...por que não as ruins?
Preciso esquecer as obrigações e enfatizar os sonhos..
Enfatizar também, os meios de garantir os sonhos.
E amar. Amar em primeiro lugar a mim mesma,
Com especialidade, inteireza e paixão.



segunda-feira, janeiro 28, 2008

Mais verdades sobre o amor.


É interessante falar do amor..muita gente fala sobre ele até. Desse amor que basta olhar pra ter certeza; dessa aventura racional de olhar alguém cheinho de defeitos e simplesmente amar. Cuidar cativamente do olhar de alguém, como se fosse o ultimo dia da existência; tocar as mãos como se elas demonstrassem a certeza de uma proteção surreal; respirar num beijo como quem procura respostas ao momento intenso; estender os braços num abraço sinceramente inteiro. A verdade é que o amor se explica quando aquela feição de “eu sabia que você ia dizer isso” aparece no rosto; quando você entra em qualquer fria pra ver que o outro ficou deslumbrantemente feliz...quando você pára o tempo e as circunstâncias pra dizer “eu te amo” sem qualquer motivo explicativo, só o fator gerador da existência. Outro dia assisti uma comédia romântica (pela 246474849493736262528413256ªvez), que me marcou ainda na pré-adolescência.. “Um lugar chamado Notting Hill”. Falei comigo mesma que num futuro qualquer, ia saber de pronto o rapaz que me faria ser uma “amante do amor”. Adorava rever a cena em que Julia Roberts (Anna Scott) dizia: “está aqui uma garota, parada na frente de um rapaz, implorando a ele para amá-la”. Eu me imaginei dizendo isso tudo com um olhar, e deu certo; foi quase que um Deja Vu. Tem que “rolar a química”; e olha que eu já tentei inúmeras vezes desclassificar essa tese de “química”, mas não deu muito certo, ela existe e isso é fato.

É fato também que as madrugadas ficam vazias
Quando o sonho não percorre terrenos de quem se ama.
Os desejos ficam tímidos se a impulsão daquela voz doce,
Por algum acaso, não existir.
Até os detalhes super-coloridos perdem seus objetivos
Diante da falta.

Na verdade, na grande e gentil verdade, o amor é coisa viva, humana e sábia; silencioso na descoberta e estrondoso na capacidade estranha de reconhecer alguém num “pedestal” maior que o seu.
Dizer que ama é uma virtude, e só vale para corajosos.

Portanto, eternize o amor.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Entretantos...


Um verdadeiro culto à vida é cheio de entretantos. Coisas caricatas vivem acontecendo; pessoas dos mais diversos formatos vivem passando, os aprendizes nos seguem, nós seguimos os mestres, ouvimos música boa porque é pura frenesi, choramos por amor, rimos por amor, endoidamos por paixão, por preocupação... falamos seriedades, banalidades, meras palavras. Entretanto, num é que a gente esquece de viver os momentos mais up dessa nossa existênciazinha curta pra caramba?!

O espaço temporal requer a coragem dos mortais. O mundo precisa de sobressaltos, de visionários e não de entretantos. F. Pessoa já dizia: “navegar é preciso, viver não é preciso”. Navega quem viaja, quem ri, quem aposta nas miudezas, quem acaba alcançando as grandezas, quem sabe que o futuro é um barco a vela que faz a gente chegar numa ilha deserta qualquer pra viver de lembranças felizes, proveitosas e incrivelmente boas de se contar. Nada disso precisa de burocratismo intermitente, muito menos de precisão (Pessoa também já sabia disso); a gente é que vive pra complicar demais as coisas, pra diminuir as capacidades, pra engolir mais que mastigar, pra se encher de pseudo-ética, pra acorrentar a chance no pessimismo e ainda por cima fazer de conta que a vida é uma novela de final esperado, coeso e teoricamente feliz.

Tolice dizer “entretanto” para a existência. A essencial virtude de SER está nos “sobretudos”, “principalmentes”, “mais ainda”, “tantos quantos”...no carão de chegar diante das dificuldades e manda-las pra merda. Essa desumana dilação da esperança só pode ter sido criada pela mente dos mortais... pelos olhos dos que levantam bandeira branca antes do prazo, pelo erro fatal da desistência.

Nunca se esqueça de não dizer um “entretanto” pra ser de um jeito ou de outro, feliz.

Ame pelo simples fato de não pendurar nenhum “entretanto” no pescoço da pessoa amada.

Lute pelo que deseja, mesmo que o monstro do seu guarda-roupa seja um enorme “entretanto”.

Viaje, mas não leve conjunções.

Sorria, mas o fato de não estar na Bahia não é um terrível “entretanto”.

Respire, dance, cante, pague micos, pague pau, delire-se, alongue-se, clame por adrenalina, acalme-se, sinta, cheire, beije, brinque, estude, durma, fale.....

ENTRETANTO, seja feliz.